24 de maio de 2010

Anatomia

O sangue deve ser uma mistura de sentimentos. Os sentimentos feitos em matéria talvez. Porque quando a raiva sobe assim dentro de mim, eu sinto o sangue correndo como se fosse eu mesma, querendo extravasar toda essa agonia, mistura de dor, tristeza, fúria. As lágrimas pulam dos olhos como se fossem pedras, que eu mesma atiro de dentro de mim. Eu prendo a respiração só pra sentir a reação. O coração diminui por um momento. O organismo começa a ficar desesperado com a falta de ar. E eu começo a rir disso. Sim, às vezes eu acho que beiro a loucura. Rio e choro ao mesmo tempo. Imploro e ignoro. E as reações do meu corpo são cada dia mais interessantes.

Às vezes tenho a impressão que consigo sentir o sangue correndo, se espalhando pelas veias, indo e vindo do coração. Nos momentos de dor de cabeça mais acentuada, me distraio sentindo-o nas têmporas. Ou nos pulsos. Não alivia a dor, mas me distrai. Gosto quando os pés adormecem. Porque quando voltam consigo sentir o corpo se movimentando lá dentro. Toda reação do corpo é apreciável. Até nos momentos de maior dor. Nesses momentos, na verdade, que elas são mais intensas, elas são mais intrigantes. E instigantes.

Por isso, quando minha cabeça dói assim e meus olhos estão com essa textura seca que vem depois da água salgada em excesso, eu aprecio. Não que eu goste. Mas já que é inevitável, eu acho aonde me infiltrar, fisicamente dentro de mim mesma, talvez pra fugir da introspecção que realmente é assustadora. Aproveito pra sentir a vida que corre por baixo da pele, essa vida que pelo menos podemos tentar controlar.

13 de maio de 2010

Diálogos Interiores


- To meio sentimental hoje...
- E quando você não está?
- Ah, às vezes eu estou meio seca...
- Não, às vezes sua sentimentalidade está pouco aflorada. Seca, nunca.
- É, pode ser. Ando me confrontando muito. Existem vozes demais dentro de mim.
- Eu sou prova disso.
- Sinto falta do palco. Ando me imaginando muito nele, quando ouço as músicas mais inspiradoras, quando leio os livros. Não sei como vou me encontrar com isso de novo.
-Algo dentro de você diz que você vai.
- Será que estou acomodada demais? Será que preciso fazer alguma coisa louca pra mudar isso?
- Te falta coragem.
- Eu sei. Será que algum dia vou conseguir? Tenho a impressão de que busco coisas muito opostas com a mesma intensidade. Não sei se algum dia vou conciliar isso.
- ...
- Tenho certeza que é aí que está minha realização. Dentro de mim é tudo disperso demais. Preciso integralizar. Eu sei o que devo fazer, mas não sei como fazer. Na verdade, não sei se sei o que devo fazer.
- Você tem que esperar. Não é a espera acomodada, que vai aceitando o que vem e pronto. É a espera aliada de preparação.
- Você sempre tem as respostas né?
- Ha ha ha. Eu preciso ter. Para que mais serve uma voz interior do que pra inventar respostas?
- Mas será que elas são corretas? Será que realmente vai dar certo?
- Não sabemos. Mas o que mais podemos fazer, além de imaginar que vai?
-É, o que mais? Os planos são esboços. Não quero mais me sentir inútil pra mim mesma. Será que algum dia vamos nos tornar uma só?
-Eu sou só uma extensão. Dependo.

6 de maio de 2010

Vida Universitária

(Me divertindo um pouquinho...)

Sentada no chão
Caderno na mão
Tenis no pé
Dinheiro migué

A roupa surrada
A mente esgotada
Livros na mochila
Se senta cochila

Festeja, cerveja
Atenta, boceja
Estuda, faz prova
Estuda, reprova

Mal deita, clareia
As férias anseia
Na falta de um fim
Termina assim...



(Sobre o poema: Levemente inspirado nas experiências mais próximas e mais próprias.
Sobre a imagem: atendimento todos os dias exceto férias escolares. Quem precisa? \o/)

30 de abril de 2010

Coração de Pedra



- Estou triste hoje.
- Por quê?
- Besteiras...
- Não sei porque as pessoas não ligam pras besteiras.
- Eu ligo.
- É de besteiras que é feita a vida,são nelas que iniciam grandes momentos ou grandes decepções...
- E é de besteiras que a vida é desfeita.
(Ou as coisas bonitas dela...)

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Eu não conheço a neve,
Eu não conheço o frio,
Mas conheço a tristeza de um coração vazio.
Ah, se esse coração fosse de pedra,
não sofreria tanto,
não amaria tanto.
Ah, eu quero um coração de pedra,
pra acabar com esse samba que com tristeza eu pranto.


(Incrível e nada proposital a contradição deste post com o último...)

27 de abril de 2010

O que me faz feliz


Não é incomum eu ficar analisando minha vida. Tudo aquilo que passou, o que anda acontecendo. E o medo daquilo que virá.

A incerteza é tão intimadante. Os planos, apenas esboços, eu consigo vizualizar só envoltos em uma neblina longínqua. E são vários esboços. Talvez isso seja o mais apavorante. Quando há um ideal só, uma coisa só pelo que correr atrás, mesmo que apenas se aproxime do esperado no final, deve ser mais fácil. Mas quando os esboços são muitos... é difícil escolher em qual mundo quero viver.

Mas quando me pego analisando minha vida, percebo que, de certa forma, meu passado e meu presente se fundem. O tempo ainda não deixou nenhuma divisão marcante demais. Não me tirou de casa, não me tirou ninguém, não me arrancou pedaços. Já me deu um ou outro peteleco, que no momento eu até achei que fosse um tapa na cara, mas depois percebi que era sim apenas um peteleco. Essa mania de projetar o que poderia ser, o que poderia acontecer, me faz às vezes perceber que o que senti não foi grão de areia.

Mas ainda assim, algumas mudanças simples vão mostrando-me que o relógio está correndo. Não precisar do pai pra ir comprar um tênis, da mãe pra fazer o lanche, pra ir experimentar o uniforme na escola, pra assinar a autorização do passeio. De vez em quando ainda me pego admirando os vestidos de festa junina nas lojinhas de bairro. Tudo isso é resquício de uma infância quase recente, ou talvez de uma memória boa mesmo.

Leite condensado com toddy depois do almoço, filme na tv nos fins de semana, abraço e selinho do irmão bem mais novo, beijo no rosto dos irmãos pouca coisa mais novos, abraço carinhoso e aconchegante do pai, risada e bochecha-boa-de-apertar da mãe, biquinho-de-peixe da vó, festinhas com a irmã (desde sempre), café com os amigos, cantoria com as partes de mim, cantorias, músicas para aproveitar os tempos de ócio ou de ônibus, livros repetidos porque eu gosto mesmo, marcopolo na piscina, bolo prestígio; pão,pipoca,cinema particular,café com (do) namorado, estravagâncias. Queta no meu canto com todo mundo dentro dele. É o que me faz feliz. Porque pode o tempo passar, pode me dar petelecos e até bofetadas, mas a alegria prevalece.

A alegria prevalece em mim, graças a quem prevalece em mim. Tudo só segue em frente porque meu universo se expande em cada um que eu amo e recebo de cada um o universo expandido.

Apenas obrigado.

(Só enquanto eu respirar...)

23 de abril de 2010

Riacho


Acho
Porque tudo em mim é apenas o que acho
E aquilo que encontro é aonde me encaixo

Sigo o tempo, sigo o curso,
vou seguindo meu riacho
Sendo o tempo pai malvado
levo às vezes um esculacho

E é pai, irmão, amigo
A família é como um cacho

Vou aprendendo e sigo firme
feito nega de despacho
Conseguido o que quero
Talvez um dia sossego o facho.

16 de abril de 2010

Acho

Sou dependente
De uma forma preocupante

De mim
dependo
de ti
Dependo do outro
de calor
de aconchego

Não gosto do meu uni(co)verso invadido
Quero uma personalidade incontestável
No entanto minha mente é esponja demais.

Gosto de mim
Não
gosto de algo em mim

Penso demais
com fundo demais
Em pensamentos, em sentimentos
Em tentar
-me
compreender

Parece que nasci para uma coisa - natural em mim,
só que escolhi outra - que exige um pouco demais

Procuro-me
Acho
não
me encontro

Devo ser quebra-cabeça com todas as peças,
D e s m o n t a d o
Dificil de achar a
Forma
Completa.

Hoje (nesse momento)
acho
que não é fácil ser eu.

(Poema de alguns meses atrás. Tinha publicado e depois tirei, não sei explicar o motivo. Mas acho que já é hora de republicá-lo. 'Entrou na chuva, molha'.)(A forma, pangaré, a forma...)

13 de abril de 2010

Divagações

Existe uma contradição tão grande entre aquilo que a gente quer, aquilo que a gente necessita e aquilo que a gente faz. Imagino que o objetivo da vida seja igualar os três.

(Ainda não consegui desenvolver mais que isso...)