Tenho sentido meu coração doer.
Dói principalmente toda vez que eu lembro do menino
puxando com dificuldade o carrinho de papelão,
usando na perna um aparelho fixador parafusado,
me olhando tomar um café na calçada,
sentando no meio fio da próxima esquina pra dar uma olhada no machucado
enquanto eu pensava se ele já tinha comido
e se se ofenderia muito deu lhe levar uns pães de queijo.
Toda vez que dói,
tenho que lembrar de respirar fundo e olhar pras nuvens
(pro céu, pras árvores)
pra lembrar que existe algo bem maior
e que esse algo bem maior também sou eu.
Andaram saindo de mim, muitas palavras sobre vergonha.
Faladas, escritas, pensadas.
Vergonha de erros que me ferem o orgulho.
Ontem percebi com clareza que a única justificativa pra vergonha
é não estender a mão a um irmão que os olhos encontram
e as almas conversam.
"Não quero mais saber do lirismo que não é libertação." Manuel Bandeira
6 de fevereiro de 2017
21 de dezembro de 2016
Uma estrela no céu
Esses dias pra trás eu vi uma estrela nascer.
Vi o exato momento em que ela apareceu!
pulsando no meio de uma escuridão sem fim
nasceu na chuva compulsiva compulsória
com soluços e trovões que ressoavam no peito
com soluços e trovões que ressoavam no peito
despencando de nuvens olhos negras carregadas.
nasceu enfrentando um exército
levou pro inalcansável todas as despedidas
rompeu de mim sussurrando
"adeus"
Todos os dias agora eu olho pra essa estrela no céu:
beirando as Três Marias, ela canta pra mim,
com voz de criança:
"esses dias pra trás eu vi uma estrela nascer,
vi o exato momento em que ela apareceu!
se aquecendo no fogo, se entregando de corpo
confiando na terra, morreu e viveu".
25 de novembro de 2016
Noite
Não costumo entender a noite.
Não enxergo o sol que reflete na lua,
ele some no horizonte e só resta
sombra, medo e solidão.
Mas há noites quentes,
em que a lua inebria
o silêncio respira
o ar fresco arrepia
Normalmente eu anseio pelo dia,
menos em madrugadas nuas que justificam as manhãs tardias.
24 de novembro de 2016
Chama
Sou vontade de tudo e transbordo
Atrai-me o calor
do sol que queima
do hálito que embaça
da água que banha a pele e escorre
percorrendo ares, cores e vales,
tudo que é presenciável
tudo que é lacrimal
Não me interessa o frio
Calafrio que esquenta é que é convite.
Atrai-me o calor
do sol que queima
do hálito que embaça
da água que banha a pele e escorre
percorrendo ares, cores e vales,
tudo que é presenciável
tudo que é lacrimal
Não me interessa o frio
Calafrio que esquenta é que é convite.
6 de setembro de 2016
Pele
Nas árvores desfolhadas
me percebo em pedaços
no peito amado
me desfaço em soluços
puros, certos, tensos, aliviados
Passo por momentos eternos
nunca vistos antes
onde nunca estive:
madrugada ébria,
me desvisto crua
pura, certa, tensa, aliviada
É um caos e me situo nua
sem coragem, crua e sua
onde nunca estive antes.
23 de agosto de 2016
Ateliê
Há dias me mandaram enxergar direito,
me disseram que era tudo culpa minha
e me mandaram abrir os olhos.
Mas disso eu já sabia.
Me disseram que era tudo culpa minha
e que eu segurava o que devia estar oferecendo.
E que na pele eu ia perceber o que acontece
quando não me passo dos limites.
E disso eu não sabia.
Me mostraram que eu ia me preencher
de tudo que eu botasse pra dentro.
E me questionaram se era daquilo mesmo
que eu queria ser contida.
E eu não fazia ideia.
Não fazia ideia das distrações
da amplitude delas
da importância delas
de como é fácil passar por uma noite,
de como uma noite é uma vida
e de como uma vida é só uma noite dilatada.
"Não há o que ser a não ser o que é"
De lá pra cá eu não parei de ouvir
E me disseram que o cansaço não existe,
porque o trabalho é infinito
e o amor é o tubérculo que dá a liga.
(para ler provavelmente ao som de: )
9 de agosto de 2016
Lavoura
"Não existe o que é bom
não existe o que é ruim
não existem sequer as distrações.
Segura minha mão e fica comigo,
porque você já está lá
e é só o que há.
Afina e mantém,
o resto é distração."
Muito de mim se perdeu e, ao contrário do que eu imaginava, só fiquei maior.
(eu tinha tanto pra anotar
e anotei tudo mentalmente.
No final só conseguia lembrar
que precisava de um bloco de notas)
20 de junho de 2016
Reinado
O que parece vir de fora para dentro
também vem de dentro para fora.
Sou do sol!
que ele reine sobre mim
Sou da lua.
há sempre sobrevida
Sou do sonho...
com calma, atinge-se o Universo.
Depois que todos foram embora,
fiquei só comigo mesma.
E nós somos tantas!
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