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16 de agosto de 2010

Bolo Prestígio - do Bolo Prestígio

Festa de aniversário na minha casa é sinônimo de bolo prestígio.

Desculpem-me os de brigadeiro, abacaxi, coco, pêssego, morango e suas respectivas cozinheiras. Vocês são maravilhosos nos aniversários alheios. Mas meu aniversário não o é sem bolo prestígio.

Aquele da massa feita em casa, batendo a clara separadamente pra deixar o bolo mais airado. Essa que quando eu era pequena a mamãe ainda batia no garfo, e depois que a massa ficava pronta a briga era pela colher de pau e a panela. Aquele do qual o coco escorre de dentro e a cobertura é cremosa e quase negra, sem dó de chocolate.

Desde que não me entendo por gente, o bolo prestígio é louvado lá em casa. E não adianta outra pessoa fazer, tem que ser o da mãe. Ninguém nunca conseguiu explicar e ninguém nunca conseguiu fazer igual. Não é o bolo mais bonito, mas é, sempre será, nunca deixará de ser, será eternamente e eternamente será o bolo mais gostoso. As vezes, desnecessariamente, tenta-se aperfeiçoá-lo ainda mais, seja com granulado colorido,  confeitos de bolinha, M&M's, bis, raspas de chocolate, estrelinhas e o diabo a quatro em confeitos de supermercado. Inútil e desnecessário. É como tentar aperfeiçoar a  beleza de Afrodite. O Bolo Prestígio reina  de véspera.

Lembro-me que já levei pra escola inúmeras vezes e vi crianças se estapearem. As professoras, sempre em regime, diziam que iam  levar pra moça da cantina mas eu juro que sempre ralhavam comigo na cantina por eu não ter reservado um pedaço. E era impossível que, em casa, depois do parabéns, sobrasse uma migalhinha que fosse pro cachorro. Deve ter sido por isso que a Serena, uma fila que viveu conosco muitos anos, aproveitou-se uma vez de uma bobeada e virou a obra-prima prontinha, linda, perfeita no chão com uma patada. Ficou tudo pra ela. Cadela.

Dessa última vez, a mamãe fez um no dia do aniversário mesmo e um no dia da festinha, que foi dois dias depois. O primeiro estava deslumbrante. O segundo eu esqueci de levar pra festa.

Sim, eu esqueci de levar o bolo pra festa.

Eu queria voltar pra buscar, mas não quiseram me trazer. Não podem se queixar. Eu queria.

Agora, dá licença, deu uma fominha e eu vou pegar um pedacinho ali na geladeira, do bolo que, despropositamente, juro, eu esqueci de levar pra festa.

11 de agosto de 2010

Bolo Prestígio - da Bicicleta 2

Esses dias atrás descobri o que foi feito daquelas bicicletas de quando eu e meus irmãos éramos crianças. Aquelas das quais escrevi a pouco tempo.

Certo dia, vésperas de natal, meu pai ia dirigindo sua kombi super adequada para um homem com seis filhos para sua casa, lá pros rumos de Hidrolândia. No meio da estrada vinha vindo uma família, uma mulher com não sei exatamente quantas crianças. Iam a pé, pelo acostamento da rodovia, um espetáculo de perigo nada incomum naquela região. E em muitas outras, admitamos.

Mas não irei me desviar por muito mais tempo. Assim como meu pai não desviou a atenção daquela família que se desviava dos carros e caminhões. Nesse dia, as duas bicicletas estavam no porta-malas da kombi e tinham acabado de serem restauradas. Meu irmão mais novo ainda era bem pequeno e provavelmente iria se divertir com pelo menos uma delas. Mas aquelas crianças da estrada iriam se deslumbrar com certeza muito mais.

Parou-se a kombi, desceram as bicicletas. Pode ser que tenha sido o primeiro presente de natal deslumbrante para as crianças. E para a mãe, porque o que nossos pais dizem é que não há alegria maior que ver um filho feliz.

Lembro-me que a minha idéia era a de restaurá-la e transformá-la em um quadro daqueles estilosos. Que disparate! Bicicletas não foram feitas para ficarem na parede e sim para dar vida aos sonhos da infância e nos darem nossos primeiros vôos.

A invenção de meu pai foi muito mais feliz!

("Um rei me disse que quem deixa ir tem pra sempre.")

14 de junho de 2010

Bolo Prestígio - da Bicicleta

Ela era branca. Ganhei quando morava em São Paulo.
Não vou descrever a sensação que tive ao ganhar a primeira bicicleta, simplesmente por que não me lembro. Uma monarck, ou será que era caloy? Lembro que era branca e de rodinhas. A da irmã era roxa. Igualzinha, como tudo que tínhamos, só que roxa.

Engraçado essas coisas de irmãos... Me lembro bem que tudo era sempre igual, só mudava a cor. Os óculos de sol: meu rosa, dela amarelo. Os sapatos de "festa": meu rosa, dela branco. Os vestidos de festa junina, a blusa de lã, a jaqueta de couro. Às vezes nem a cor mudava. E eu me perguntando porque que achavam que éramos gêmeas. Com os irmãos foi a mesma coisa. A diferença é que dessa vez um era branco e o outro moreno.

Voltando à bicicleta. Não sei se foi de natal, ou de aniversário, de dia das crianças, não dá pra saber. É difícil distinguir as datas de presente de criança porque em casa, o presente ou era pra um ou era pra nenhum. No aniversário de um, todo mundo ganhava presente. Se vinha dinheiro tinha que dividir, verdade. Mas ganhamos a bicicleta. E tenho poucas lembranças dela.

Lembro que foi no Quinta das Oliveiras. Depois eu passei a chamar de Quinto dos Infernos. Mas na época eu gostava de morar lá. Tinha muita criança e, como todo lugar com muita criança, muita perversidade. Atropelaram no estacionamento a rodinha da minha bicicleta. E lá andava eu, de uma roda só. Bicicleta cambeta. Decidiram tirar as rodinhas da minha bicicleta.

Se para mim é difícil lembrar sensações, eu me lembro muito bem do medo que eu estava de andar nela sem rodinha. E da vergonha, porque era a única que ainda usava. Já tinham tirado as da bicicleta roxa... Mas e se eu caísse? Na frente de todo mundo? Nunca mais ia andar de bicicleta, jurava pra mim.

Sei que tiraram as rodinhas. Não foi nem o pai, nem a mãe. Os meninos do condomínio. Os mais legais disseram que iam me segurar, que eu não ia cair.

O resto foi igual o de todo mundo. Me seguraram por um tempo e, lá estava eu, toda confiante nos que me seguravam, tagarelando sem saber que era sozinha. Olhei pra trás, ninguém. Só lá no fundo. Lá bem atrás. E eu, sete anos, sobre minha bicicleta branca, sem rodinhas.

O primeiro voo a gente nunca esquece.

A bicicleta ficou pra trás, assim como o Quinto dos Infernos e os meninos do prédio. A última lembrança que tenho dela é guardada no quarto de entulhos de uma casa que morei por muito tempo. Minha ideia era mandar restaurar e fazer dela um quadro de parede, daqueles estilosos.

Perdeu-se a ideia. Ganhou-se uma história.

10 de junho de 2010

Bolo prestígio - De São Paulo

A impressão que tenho às vezes é que a vida se divide em capítulos. Os meus, por enquanto, seriam *: de São Paulo (subdivididos em 'Do Tia Terê', 'do Cetec', 'da Torta de Morango' e 'do rocambole'), da Bicicleta, do Bolo Prestígio, do Quinta das Oliveiras, da Padaria 3V, da chácara do vovô, do Sigma, do Mont Serrat, da 'fase difícil', do Olho Vivo, do Ensino Médio e da faculdade, capítulo em construção.

Pouco, na verdade acho que nada, lembro da minha vida goiana antes de morar em São Paulo. Sei o que me contam. E, para mim, toda narrativa é tendenciosa. Por mim mesma, não consigo lembrar nada, por mais que viaje nas memórias. Fui morar em São Paulo ainda era de colo, se não me engano. E é de lá que tenho minhas primeiras lembranças. Lembranças essas que às vezes não sei (e às vezes sei) se são realmente lembranças, ou se são aquelas imagens que nos ficam na cabeça de tanto ouvir falar.



Do Tia Terê

Tia Terê é o primeiro colégio que me lembro de ter frequentado, apesar de me dizerem que eu tinha estado em outro antes. Não me lembro. Lembro do tia Terê. Me vem na memória o primeiro dia de aula, em que tantas crianças choravam, querendo o pai, a mãe, o irmão, sei lá. Não me lembro de chorar. O que lembro é que observava as crianças chorando e simplesmente não entendia. O que provavelmente é uma das muitas falhas da minha memória, porque desde que me entendo (ah! que pretensão!), choro por tudo. Mas nesse dia me lembro apenas de ficar observando aquela aguaceira nos olhos alheios. Dos filhos e dos pais, óbvio.

Descobri depois de um tempo que praticamente todos os alunos dessa escola eram japoneses. Não percebi isso enquanto estudava lá. Acho que crianças não devem fazer essas distinções.

Lembro também do bauru e do suco de caju que levava na lancheira todos os dias. A lancheira era rosa, da Barbie, em forma de coração ( =O ). Recordo que ela ficou dentro do ônibus e minha mãe saiu correndo pra tentar buscar. Não conseguiu. E eu ganhei uma lancheira sem graça, branca, em forma de lancheira.

Do Cetec

Quando saí do Tia Terê, fui estudar no Cetec. Ia fazer o pré. Foi a primeira separação da minha vida (não foi tã dramático assim), porque minha irmã fazia a primeira série, e era em outro prédio, que ficava em frente. Ela amou a idéia.
Tinha um prédio enorme no Cetec, feito com aqueles materiais que a gente quando é criança acha que é de água. É o mesmo material com que é feito a Universal, que fica na Avenida Goiás, aqui em Goiânia. Meu sonho era entrar naquele prédio (no do Cetec, não na Universal!). Diziam que lá eram feitas as aulas de natação, esportes. O que eu queria mesmo saber como que a água se mantinha em forma de prédio.

Fiquei apenas meio ano no Cetec, acho. Me lembro que quando meus pais decidiram voltar pra Goiânia, e nisso eu já tinha mais dois irmãos, um dia fiquei até mais tarde na escola. Meu pai tinha se atrasado por algum motivo e quando vi, estávamos apenas eu e a professora. Eu contei pra ela que iria mudar de São Paulo. O problema é que eu disse que iria sair do país. Foi quando ela me fez descobrir que Goiás ficava dentro do Brasil.

Da torta de Morango

Na verdade, era bolo de morango. Nem sei se o bolo era de morango. Não me lembro do gosto. Sei que a cobertura era todo em uma creme rosa, e acho também que tinha uns fiapinhos de coco por cima, não sei. Mas era linda. Acho que era de padaria e sempre que eu ia comemorar aniversário na escola, lá estava o bolo de morango. Eu amava comemorar os aniversários na escola. Triste era quando o aniversário dava no fim de semana. Legal era quando dava na sexta feira!!!

Do rocambole

Acho que era de chocolate. A mamãe chegava em casa da padaria com pães e aquele rocambole. Até hoje me dá água na boca. Nunca consegui achar outro igual. Mas também tenho a suspeita de que paladar de criança deturpa tudo que não é verde e não é cebola, claro, para o lado positivo.



Acabo de descobrir que é muito difícil dividir a vida em capítulos, eles se mesclam muito. Chega um momento em que não é possível colocá-los em ordem cronológica. Em ordem de importância. Parece que a vida, depois que os bolos e rocamboles vão virando apenas lembranças, se torna feita de tópicos. São recortes, soltos de um momento que a gente sabe que existiu, mas que é impossível lembrar. É um momento ou outro. Soltos, recortados. Pouco nítidos. Só não podemos perdê-los.

Como ainda espero viver muito e sei que muitos recortes virão, preciso começar a relembrar os antigos, para que não se percam por aí, nas memórias e fotos que não são minhas.

Vida longa a mim. Que venham mais capítulos!

* Tentei, mas logo desisti, colocá-los em ordem cronológica. Impossível.