21 de outubro de 2010

Anatomia



Adoro sentir meu coração querendo pular fora do peito.
Essa sensação que acontece quando vamos falar em público, apresentar uma peça, cantar uma música, sei lá.
Aliada daquela vontade louca de vomitar tudo o que não comeu pelo nervosismo. É bizarro. E tão bom. Parece que o peito realmente vai se rasgar, e o coração simplesmente vai sair por aí quicando.
É a prova mais fácil de sentir vida. O coração batendo forte, dá pra senti-lo na têmpora, nos pulsos, no pescoço. A cabeça fica zonza com a aceleração do sangue, as mãos começam a tremer.
Gostaria de conseguir sentir tão facilmente cada pedaço do meu corpo. Sentir de verdade, querendo sair fora.
O que será o coração? Será que é a alma que de alguma forma precisa se alojar? Será que é a vida, se mostrando presente? Será que é o amor, que vai se acumulando dentro do nosso corpo tão desconhecido e vai tomando forma?
Ainda quero poder sentir o sangue correndo pelas veias, o ar preenchendo os pulmões, saindo pelos poros e ressoando nos ossos, construindo os harmônicos mais perfeitos. Quero sentir as lágrimas subindo aos olhos, as cordas vocais vibrando. Só podemos ter sensações. Idéias mínimas.
O corpo é palco da alma. Que ela atue em cada célula que tenho.

(Texto antigo, que encontrei perdido aqui nos meus rascunhos... Normalmente esses são os que eu não gosto... Hoje eu gostei dele e achei que deveria postar.)

12 de outubro de 2010

Paciente

Paciência.
Paciência.
Paciência.
...

6 de outubro de 2010

Sobre a Alemanha

Pessoas do meu coração saudoso,

A viagem para Alemanha foi indefinível. É muito engraçado ver tantas coisas novas e diferentes e essas coisas que a gente só vê em livros aí no Brasil. As pessoas daqui não ficam tão impressionadas quanto nós, porque por mais que estejam em um país diferente, continuam no "velho mundo". Quando eu conto que minha cidade tem apenas 70 anos todos ficam impressionados... E enfim, o itinerário foi Munique, para conhecer a tão famosa Oktober Fest e depois Berlim. Fomos pegos de surpresa em várias situações, a primeira real experiência louca aqui.

Fomos em cinco, dois casais brasileiros e uma paraguaia. Existe um ticket na Áustria em que um grupo de 5 pessoas paga apenas 28 euros juntos para viajar todo o dia para qualquer lugar do país. Ou seja, cada um paga 5,60. Dessa maneira, nossa viagem ficaria muito mais barata, porque comprariamos esse ticket para ir até Salzburg, na Áustria, depois cruzaríamos a fronteira e compraríamos um ticket equivalente na Alemanha, que custava 37 euros e valia para todo o fim de semana. No final das contas saíria a ida até Munique por pouco mais de 15 euros e depois para Berlim por 7euros. O problema é que os trens que pegaríamos não iriam direto e demorariamos muito tempo a mais pra chegar até o destino final. Mas o trem direto sairia muito mais caro, então decidimos encarar o "pinga pinga" mesmo. 

Porém, quando estávamos ainda na estação de Graz, indo para Salzburg com um itinerário que demoraria 3 horas a mais que o normal, conhecemos o fiscal do trem, que validava os tickets, porém sem saber que ele era fiscal. Ele nos deu algumas informações e um pouco depois, quando já estavamos instalados, ele perguntou se poderia sentar-se perto de nós. O rapaz estudava espanhol e ficou muito feliz de poder treinar o idioma com nossa amiga paraguaia. Alguns minutos depois ele entrou em uma cabine e voltou nos dizendo que poderíamos pegar o trem que iria direto a Salzburg,fazendo com que economizássemos 3 horas de viagem e muitos euros. A única condição é que deveriamos sentar nos ultimos 5 vagões do trem, pois era onde certa amiga dele fiscalizava o ticket. Se fossemos pegos por outro fiscal, estaríamos meio enrascados. E lá fomos nós, pegar o trem direto. Quando já estavamos dentro dele que caiu a ficha da loucura que estavamos fazendo e deu medo de sermos chutados pra fora do tal trem. Mas com sorte tudo foi tranquilo e tudo que o rapaz havia dito era verdade. Assim, chegamos em salzburg 3 horas antes do planejado.

Mas isso não adiantou tanto assim as coisas, pois chegamos na cidade da fronteira pouco depois e tivemos que esperar por mais ou menos 5 horas, de madrugada, até o trem que seguiria pigando novamente para Munique. Conseguimos enfim chegar até Munique por volta das 7 da manhã.

Após algumas informações, fomos para a Oktober Fest.Estava chovendo e fazia muito frio. Estava bem cedo, então coseguiriamos entrar em alguma tenda. Eu já estava dentro de uma quando percebi que um dos nossos amigos fora barrado pelo fato de sua mochila ser muito grande. Então tivemos todos que voltar até a estação para encontrar um guarda-volume, onde deixamos as nossas mochilas. Quando voltamos novamente, não havia mais como entrar em nenhuma tenda. Tivemos que ficar andando pelas ruas da festa. Mais ou menos ao meio dia a chuva deu uma tregua e conseguimo um local bem estratégico, externo a tenda, EMBAIXO DE UM AQUECEDOR! Perfeito. Ficamos lá até termos que ir buscar as coisas no guarda-volumes. Voltamos de novo para a festa depois, mas já estvamos de saco cheio, pois as pessoas já estavam bebadas demais, algumas brigando e esbarrando muito, e a chuva voltou a incomodar. Decidimos ir embora por volta das 16 horas, embora nosso trem para Berlim saísse apenas as 20, acho.

Enfim, chegamos em Berlim por volta do meio dia do domingo e fomos direto para o hostel, todos loucos por um banho. No meio da viagem tivemos que ficar 5 horas em uma estação que não tinha absolutamente nada, numa cidade que devia ter 20 habitantes. O hostel era muito bom e foi bem barato, 13 euros por dia com café da manhã incluso. Tomamos banho, nos arrumamos e fomos direto para conhecer a cidade. Visitamos muitas coisas.

A primeira visita foi o muro de Berlim. Algo impressionante de se ver. Imaginar todas as coisas que ja se passaram por aquele lugar, toda a memória de filmes e livros vem a cabeça. Andar pela linha onde era o muro, ver hoje a cidade como é, tudo muito impressionante. A cidade estava extremamente fria, o pior frio que peguei até hoje por aqui. Fomos ainda ao museu de història da Alemanha, museu judaico, universidade Humbold, onde estudaram Marx, Einstein e os irmãos Grim, a catedral, as ruas e praças históricas, uma loja da Mercedes. O Portão de Brandemburgo e o Parlamento foram espetaculares, mesmo não podendo entrar no Parlamento, pq a fila estava muito grande. Mas o portão é algo impressionante de se ver, sentir, observar, não sei. Existem sensações inexplicáveis. 

No penúltimo dia visitamos o campo de concentraçao de Berlim. Foi a visita mais pesada. Não conseguia me sentir bem naquele lugar e não é pra querer fingir sensibilidade que digo isso. É uma visita que todas as pessoas devem fazer, é importante conhecer. Mas é preciso ter em mente que não é algo agradável, não é aquela visita que vc conta para as pessoas dizendo "OOOH, visitei o campo de concentração!". A atmosfera é diferente, talvez pelo pressuposto que já temos sobre tudo o que aconteceu e como as pessoas sofreram ali. E parece que nesse dia estava mais frio ainda, acredito que chegamos aos 5 graus, e ventava muito, o dia estava cinza e tinham muitos corvos voando pelo local. Era algo realmente sinistro e de escrever sobre isso eu já sinto o desconforto que senti lá, então vamos mudar de assunto.

Ficamos um dia a mais em Berlim, porque a melhor volta para Graz era na quarta feira as 14 horas, chegando em Graz na quinta as 19. Sim, muito tempo de viagem, mas o trem direto custaria mais de 80 euros e dessa maneira sairia por 28. Na quarta feira nos separamos. O Vinicius foi ao museu de instrumentos musicais, onde estava tendo uma exposição de guitarras e eu fui com os outros a um castelo que queriamos conhecer. No museu, o Vinicus pegou a rabeira de uma excursão de criancinhas, onde ele pode ver o guia do museu tocando quase todos os instrumentos. Muito legal. O castelo era esplendido, mesmo sem visitarmos o interior, pq não daria tempo de chegar na estação a tempo. Então visitamos só o jardim. Era um jardim fenomenal, onde havia  até cisnes, que por sinal quase nos atacaram. Haviam várias plumas no chão e nós decidimos pegar uma, mas as maiores e mais bonitas estavam perto dos animais (um casal de cisnes). É óbvio que não chegamos muito perto, mas já os estavamos olhando a varios minutos e eles não demonstravam nenhum incomodo. Uma das meninas arriscou chegar mais perto e eu vi quando os olhos do animal encontraram os meus. "Isso vai dar me***" Foi aí que o bicho soltou um grasnado, esticou aquele pescoço de borracha e abriu as asas. Disparamos a correr, todos morrendo de medo. Depois começamos a rir igual bobos e ainda perdi minha pena na viagem de volta...

Enfim, pegamos o trem de volta e tivemos que esperar por quase 8 horas na estação de Munique. Não compensava procurar um hostel pq a cidade estava lotada, devido a Oktober Fest. Só pensavamos em voltar para casa, o aconchego do conhecido, visto que o deslumbre pelo novo já estava se apagando. 

No final das contas, Berlim é uma cidade impressionante, mas acho dificil pensar que me adaptaria lá. Talvez pq a impressão mais forte que guardei foi a do campo de concentração, e esse sentimento de certa forma me impregnou. Mas um lugar meio cinza demais, duro demais, meio que tudo aquilo que nós aí pensamos dos alemães, apesar dos alemães em si serem muito solícitos. Descobri com essa viagem que Graz é uma cidade maravilhosa. Não, não errei, é de Graz mesmo que falei. Aqui não há medo de andar nas ruas, não há tantos resquícios de guerras e torturas. Descobri ainda que tudo é muito mais impressionante quando se está de fora. Nao sei se todos conseguirão me entender, mas estar aqui é, de certa forma, como estar em qualquer outro lugar. Lógico que tudo é relativamente diferente, mas não há tanto deslumbre quando você está dentro da história. De fora sempre parece mais legal. Além do mais, tudo sem vocês parece vazio. Não é tristeza, nem depressão, não se preocupem. Mas é um vazio inevitável, pq vcs simplesmente não estão aqui. Parece que sempre está faltando alguma coisa em todo lugar que eu vou. Os amigos novos são adoráveis, as pessoas da cidade são muito amáveis, mas não são vocês. Não há  a solidez que há com vocês, não ainda. Durante todo o tempo sentirei muita falta de todos, mas estou conseguindo lidar (é assim que escreve, pai?) com isso de uma maneira bem razoável. Estou seguindo todos os conselhos, acreditem. Prometo tentar cumprir todas as promessas. É estranho, mas posso sentir isso e aquilo mudando em mim, posso sentir que estou crescendo e prometo levar tudo que for bom. Estou com medo do inverno, de verdade. As vezes quero os 38 graus que vocês andam praguejando. Mas só as vezes. =)

Vocês são meu círculo quente, meu porto seguro. Só pq sei que vcs estão aí que eu posso ficar um pouquinho aqui.

Desculpe pela prolongação excessiva. Amo todos.

Vivi

23 de setembro de 2010

Adaptação

Água fria
gelada
morna

Desculpe-me se penso demais
Pelo menos sou água,
me adequo
me adapto

Mostre-me que é tão água quanto eu.

11 de setembro de 2010

Áustria - sobre tudo inicialmente

Tenho pensado muito em como escrever tudo o que tenho vivido e olha que nunca me foi dificil colocar a vida em palavras. Mas talvez as últimas experiências tenham sido tão intensas que até as palavras tem me faltado. São experiências daquelas de ficar engasgado, com os olhos marejados, sem saber sequer o que pensar.
Não tenho sabido muito bem o que pensar. Tenho feito como nos comerciais de refrigerante: vivido a vida intensamente. Acho. Devíamos fazer isso sempre.

Mas vamos tentar ser mais diretos. Graz é uma cidade linda. Talvez porque seja e primeiro contato real com um lugar tão antigo. Goiânia tem apenas 70 anos! Então ainda me encanto com esses castelos ao meu redor,os bancos situados em locais que há séculos atrás deviam ser mansões dos duques, duquesas, barões e outros níveis quaisquer. Me encanto com poder beber água da torneira, com ver as pessoas enchendo as garrafinhas de água nas fontes das praças. Me encanto com a biblioteca itinerante que coloca imensos pufes no meio das praças pra você deitar e ler o que quiser.

Do meu quarto eu posso ver o Schlossberg. É a paixão do pessoal da cidade, o símbolo da luta, da conquista. O que eu entendi a guia dizendo foi que, em alguma das muitas guerras européias, soldados franceses invadiram o Schlossberg e o estavam explodindo por dentro. Mas o castelo é tão grande e tão peculiarmente construído que tinha que ser explodido pouco de cada vez. E enquanto tentavam explodi-lo, o pessoal da cidade juntava dinheiro. Ate que conseguiram uma quantia
suficiente para convencer os soldados a deixarem o castelo. Não sei se foi exatamente isso, mas se não foi, criei uma bonita história.

Tudo aqui fazemos a pé. Andei de ônibus vez ou outra, mas tudo é tão perto que vai a pé mesmo. Para a faculdade, para os cafés, para os pontos turísticos, parques. Quase todo mundo tem uma bicicleta e existem ciclovias em todos os lugares. As bicicletas respeitam os semáforos e as faixas de pedestres. Aliás, há semáforos para pedestres, que precisam ser respeitados. Ninguem atravessa se o sinal não estiver verde, mesmo que não haja um carro sequer vindo.

Sobre as comidas


Estranho, mas em duas semanas ainda não consegui descobrir o que as pessoas aqui almoçam. Porque não é possível que a cidade passe todos os dias com sanduíche de carne empanada. Todo tipo de carne empanada:peru, porco, frango, peixe. E um sanduíche realmente grande.
Por isso, não há um dia sequer que eu não agradeça as vezes em que fiquei no pé do fogão vendo mamãe cozinhar e peguei um jeitinho ou outro. Obrigado mãe! Eu te amo.

Do que eu estou realmente sentindo falta? Feijão e sucos de verdade.Cheguei ao extremo do meu suco preferido ser o de laranja, de caixinha. Claro que é de caixinha. Até carne moída vem em caixinha. Mas laranja em caixinha é o que eu dizia detestar. Bem feito, sempre me ensinaram a não detestar nada.

E haja batatas! Praticamente todo prato em todo restaurante acompanha batatas e dois quilos de batata prontas pra fritar no supermercado custa 1,20 euro. Na verdade, não é caro comer aqui. Algumas coisas saem bem mais baratas que no Brasil, como o próprio arroz (que vem em caixinha) e o quilo custa 0,89 euro. Frutas e verduras são a mesma coisa (sim, estamos no mesmo planeta), só falta uma coisa ou outra e acrescenta-se mais uma ou outra diferente.

Sobre o alemão

Ninguém se preocupe, já aprendi as quatro palavras mais importantes: 'Ohne Zwiebel' e 'Leitung Wasser'. E 'bitte', claro. Sempre. 'Bitte' serve pra tudo. Não sabe o que dizer diga 'bitte'. Ohne Zwibel é importante sempre que vou comer fora e 'Leitung Wasser' para acompanhar a comida, opção realmente interessante e normalmente não cobrada.

Entre outras experiências, tentei pagar uma conta falando em português com a moça do caixa. Me pego falando em inglês com os brasileiros ( e sendo respondida em português!) E tive que me virar em alemão com uma vendedora chinesa porque as botas dela estavam realmente baratas.

Sobre as pessoas

Ok. Ninguém me catou para um abraço no meio da rua ainda. Mas os austríacos são realmente muito simpáticos e dispostos a ajudar. E fale com eles em alemão que ganha um sorriso a mais. Eles sorriem muito. Sim, ainda estamos no mesmo planeta.
Na faculdade então, a simpatia se multiplica.

Além disso, nunca tinha visto antes tantas pessoas de tantos lugares. Chineses, brasileiros, sérvios, finlandeses, espanhóis, egípcios, gregos, tchecos, lituânios, tudo numa coisa só. Se bobear, há mais estrangeiros que austríacos em Graz.

Ah, fale em alemão com os nativos que você até ganha um doce no ponto de ônibus. Experiência alheia.

Sobre os preços

Comer pode ser barato.
Roupas podem ser baratas. Com sorte.
Calçados podem ser baratos. Procurando.
Kebaps (sanduíche meio turco) são baratos.
Morar é caro.

Sobre a saudade

Ok. Próximo post ou ninguém lerá esse texto até o fim. Se é que alguém está lendo essa frase.

30 de agosto de 2010

E se nascessemos sabendo viver?

(Para quem tiver tempo e paciência.)

Ah, se nós nascessemos sabendo viver... Faríamos tantas coisas diferentes.

Somos tão pequenos diante de tudo. Pequenos, não insignificantes. E erramos tanto.

Milan Kundera diz na Insustentável Leveza do Ser "Como pode a vida ser bem vivida se o rascunho da vida é a própria vida?" Se tivéssemos tempo de ver a vida, como um rascunho e voltar concertando aqui e ali, desfazendo isso e aquilo, os medianos oitenta anos significariam mais.

Se nascessemos sabendo viver, provavelmente esvaziaríamos com um intervalo de tempo regular as nossas gavetas e guarda-roupas e os quartinhos de entulho. Nos desfaríamos daquilo que nao serve pra mais nada em nós, fazendo outras pessoas felizes. E abrindo espaço. Dentro e fora de nós. Porque, afinal, o que é isso que vivemos senão reflexo do que está na nossa mente? É necessário tirar o entulho, preencher com o que tem importância.

Se nascessemos sabendo viver, faríamos como naquela música: nos importaríamos menos com problemas pequenos, aceitaríamos as pessoas como elas são, acordaríamos mais cedo pra ver o sol nascer, sairíamos mais pra fora de casa pra ver o sol se por. Hoje eu acordei pensando nessa música. E uma coisa me deixou triste, nao sei se foi exatamente esse meu sentimento: o nome da música é epitáfio. E é triste pensar que só nos damos conta disso quando a vida já está no fim. Se nascessemos sabendo viver, nos daríamos conta disso antes de aprender a andar.

Seríamos mais delicados com as pessoas, com todas elas. Teríamos menos implicâncias. Superaríamos os defeitos tão mínimos dos outros, que irritam-nos tão fortemente apenas porque somos ignorantes quanto ao que é viver.

Se nascessemos sabendo viver, aos nossos catorze anos daríamos mais valor aos nossos pais e irmãos muito mais do que damos aos nossos coleguinhas, namoradinhos, ídolos da televisão. A sorte é que há tempo de vida sficiente para nós para percebermos isso e correr atrás de demonstrar o valor que não demos. O duro deve ser quando o tempo passa na frente.

Se nascessemos sabendo viver nos alimentaríamos bem por conta própria para não ter que nos privar de tudo depois. Escolheríamos desde o primeiro momento aquele trabalho que nos fizesse feliz e daí não trabalharíamos nunca. Só trabalharíamos para nós. Mas esse já é um terrenos muito complicado da nossa existencia que eu acho que ainda preciso viver muito pra conseguir entender. Porque o trabalho só me é justificável como justificativa para o futuro, mas o futuro é tão incerto que fica difícil pensar sobre isso. Mas acho, e nesse caso só acho, que se nascessemos sabendo viver, talvez o motivo da vida fosse mais o presente do que o futuro. E aí trabalharíamos no almoço pra viajar na hora da janta. Mas e o futuro? Meu futuro talvez responderá.

Seríamos menos egoístas. Trabalhariamos de voluntários em alguma coisa que fosse ajudar a melhorar alguma coisa. Acumularíamos menos.

Talvez se todas as pessoas que já viveram pudessem voltar no tempo e refazer algumas coisas, elas talvez derrubariam menos árvores, gastariam menos água, jogariam menos plástico nos rios, menos lixo na rua. Não deixariam a tarefa de recuperar tudo de uma vez para alguns de nós.

Se nascessemos sabendo viver, abraçaríamos mais os mais próximos de nós. Seríamos cordiais e simpáticos com aqueles que estão conosco todos os dias como somos com os convidados de uma festa. Não seríamos indelicados com o pai, nem com a mãe. Não por medo, ou respeito. Por educação mesmo, e amor. Se nascessemos sabendo viver, talvez teriamos desde o início o amor que nossos pais tem para conosco com os outros e viveríamos muito mais intensamente.

Ah, se nos fosse permitido fazer o tal rascunho da vida. Ah, se aprendessemos a aprender com os erros dos outros, talvez a vida não precisasse ser a melhor escola por ser a mais rígida.
Muitas horas dos vinte anos que tenho ( e dias e meses são formados por horas) joguei fora com raiva, apego a inutilidades, contemplação dos defeitos, lamentação sobre o leite derramado.

Porém, sou uma otimista convicta em uma época em que o mais legal é ser pessimista ao extremo. Acredito no melhor das pessoas e no melhor da vida e quero a partir daqui viver a música epitáfio antes que eu tenha que me preocupar com o meu. E quando vejo as pessoas desperdiçando o tempo,se são próximas tenho vontade de sacudi-las para que vivam mais. Já que não temos o rascunho do Kundera, o melhor é fazer o melhor esboço possível, como nas frases clichê das blusas de 8ª série.

Esse texto não tem mesmo nada de novo. E nem pretende ter. É completamente e desde o início repleto de clichês. Mas se a vida é uma repetição com perspectiva de melhora, o que é ela própria a não ser um clichê? Como tudo que de mais belo que há nela: o amor, a amizade, os momentos bonitos e as recordações emocionantes. Tudo clichê. Nada novo.

Talvez a vida seja a mesma coisa contada de várias formas diferentes.

Se nascessemos sabendo viver, viveríamos muito mais. Por que, afinal, de que interessam as outras coisas se temos uns aos outros?

16 de agosto de 2010

Bolo Prestígio - do Bolo Prestígio

Festa de aniversário na minha casa é sinônimo de bolo prestígio.

Desculpem-me os de brigadeiro, abacaxi, coco, pêssego, morango e suas respectivas cozinheiras. Vocês são maravilhosos nos aniversários alheios. Mas meu aniversário não o é sem bolo prestígio.

Aquele da massa feita em casa, batendo a clara separadamente pra deixar o bolo mais airado. Essa que quando eu era pequena a mamãe ainda batia no garfo, e depois que a massa ficava pronta a briga era pela colher de pau e a panela. Aquele do qual o coco escorre de dentro e a cobertura é cremosa e quase negra, sem dó de chocolate.

Desde que não me entendo por gente, o bolo prestígio é louvado lá em casa. E não adianta outra pessoa fazer, tem que ser o da mãe. Ninguém nunca conseguiu explicar e ninguém nunca conseguiu fazer igual. Não é o bolo mais bonito, mas é, sempre será, nunca deixará de ser, será eternamente e eternamente será o bolo mais gostoso. As vezes, desnecessariamente, tenta-se aperfeiçoá-lo ainda mais, seja com granulado colorido,  confeitos de bolinha, M&M's, bis, raspas de chocolate, estrelinhas e o diabo a quatro em confeitos de supermercado. Inútil e desnecessário. É como tentar aperfeiçoar a  beleza de Afrodite. O Bolo Prestígio reina  de véspera.

Lembro-me que já levei pra escola inúmeras vezes e vi crianças se estapearem. As professoras, sempre em regime, diziam que iam  levar pra moça da cantina mas eu juro que sempre ralhavam comigo na cantina por eu não ter reservado um pedaço. E era impossível que, em casa, depois do parabéns, sobrasse uma migalhinha que fosse pro cachorro. Deve ter sido por isso que a Serena, uma fila que viveu conosco muitos anos, aproveitou-se uma vez de uma bobeada e virou a obra-prima prontinha, linda, perfeita no chão com uma patada. Ficou tudo pra ela. Cadela.

Dessa última vez, a mamãe fez um no dia do aniversário mesmo e um no dia da festinha, que foi dois dias depois. O primeiro estava deslumbrante. O segundo eu esqueci de levar pra festa.

Sim, eu esqueci de levar o bolo pra festa.

Eu queria voltar pra buscar, mas não quiseram me trazer. Não podem se queixar. Eu queria.

Agora, dá licença, deu uma fominha e eu vou pegar um pedacinho ali na geladeira, do bolo que, despropositamente, juro, eu esqueci de levar pra festa.

Bem feito


A culpa é toda minha.
E meu castigo é esse.
Bem feito pelo seu mal feito!
Não te ensinaram a não mexer no que não é seu?

Cada um no seu lugar, menina!
Maçã é maçã,
mas nela há casca, polpa, semente e talo.

A culpa é toda sua!
Bem feito pelo seu mal feito!

Agora guarda e digere,
se conseguirdes,
a fruta que desenterrastes.